segunda-feira, 9 de junho de 2014

O destemido cônsul

Eduardo Neira Laporte nasceu em Barcelona em 1901 e licenciou-se em oftalmologia. Exerceu em diversas mútuas, na Cruz Vermelha, e era membro da Esquerda Republicana de Catalunya. Durante a Guerra Civil foi médico na Agrupação Médica de Catalunya e acaba por fugir do regime franquista em direcção a França.

A 2 de Fevereiro de 1940 este médico e professor encontra-se em Bordéus com um cônsul português, a quem expõe as suas dificuldades. O cônsul contacta Lisboa para pedir autorização para a emissão do visto mas não obtém resposta. A 1 de Março resolve assinar o visto do Dr. Eduardo Neira Laporte (39 anos), e da família: Josefa Bigorra (30 anos), Antonia Neira Bigorra (2 anos), e Eduardo Neira Bigorra (3 anos).

No dia 11 de Março o cônsul recebe uma resposta do Ministério negando a emissão do visto, mas nessa altura a família já tinha chegado a Lisboa, e embora indesejados e vigiados pela PIDE, foi-lhes permitido embarcar num outro navio com destino à Bolívia. Em 1946 muda-se para o México, onde volta a exercer medicina, até à data da sua morte em 1971.

O cônsul recebeu uma carta de Lisboa a reprimir o seu acto:
"A repetição de factos desta natureza, lesivos da disciplina, é altamente prejudicial para o serviço, para os interessados e sobretudo para a indispensável dignidade da função consular.
Qualquer nova falta ou infracção nesta matéria será havida por desobediência e dará lugar a processo disciplinar em que não poderá deixar de ter-se em conta que são repetidos os actos de
V.ª Ex.ª que motivam advertências e repreensões."

O nome do cônsul era Aristides de Sousa Mendes e isto não impediu de continuar a passar vistos a milhares de refugiados.

Mas estes não foram os mais famosos catalães a usufruírem de um visto do corajoso Homem. Também Salvador Dalí, nascido em Figueres em 1904, e a mulher, Elena Gala, obtiveram o desejado documento em Junho de 1940 que lhes permitiu escapar para Lisboa e daí para Nova Iorque, onde residiram até 1948.

Aristides de Sousa Mendes foi afastado do cargo pelo ditador português e obrigado a regressar a Portugal a 8 de Julho do mesmo ano, sofrendo duras represálias.



domingo, 19 de janeiro de 2014

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

Se fosse vivo o poeta Eugénio de Andrade completaria hoje 91 anos.

sábado, 18 de janeiro de 2014

SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o país de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu

José Carlos Ary dos Santos, "Resumo", p. 15


Comemoraram-se hoje 20 anos da morte do poeta Ary dos Santos.